{"id":383,"date":"2019-04-30T12:26:10","date_gmt":"2019-04-30T15:26:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.piscoerodrigues.adv.br\/?p=383"},"modified":"2020-05-24T18:25:02","modified_gmt":"2020-05-24T21:25:02","slug":"reforma-trabalhista-e-seguranca-juridica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.piscoerodrigues.adv.br\/site\/reforma-trabalhista-e-seguranca-juridica\/","title":{"rendered":"Reforma trabalhista e seguran\u00e7a jur\u00eddica"},"content":{"rendered":"<p>A Lei n\u00ba 13.467\/17, que introduziu a reforma trabalhista, vem causando enorme polariza\u00e7\u00e3o de posicionamentos acerca dos efeitos dela decorrentes, sobretudo \u00e0 luz dos prop\u00f3sitos instituidores das altera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Tirante as fundadas cr\u00edticas feitas quanto ao a\u00e7odamento do processo legislativo e a restri\u00e7\u00e3o \u00e0s discuss\u00f5es dedicadas \u00e0 oitiva de todos os atores envolvidos, as altera\u00e7\u00f5es introduzidas refletem o anseio por modifica\u00e7\u00f5es estruturais voltadas a fazer frente \u00e0 enorme judicializa\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de emprego e \u00e0 inseguran\u00e7a jur\u00eddica a que expostos os empregadores, com impacto sobre o custo da m\u00e3o-de-obra e a pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o de postos de trabalho.<\/p>\n<p>O art. 611 da CLT, segundo a reda\u00e7\u00e3o vigente, j\u00e1 prev\u00ea o car\u00e1ter normativo dos acordos e conven\u00e7\u00f5es coletivas de trabalho, tendo como escopo a estipula\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho aplic\u00e1veis, no \u00e2mbito das respectivas representa\u00e7\u00f5es, \u00e0s rela\u00e7\u00f5es individuais de trabalho, forte na compreens\u00e3o da representatividade conferida \u00e0s entidades sindicais e a aptid\u00e3o e capacidade dos sindicatos laborais de postar-se em condi\u00e7\u00e3o de proceder \u00e0 transa\u00e7\u00e3o de direitos e obriga\u00e7\u00f5es da categoria.<\/p>\n<p>Uma vez subscrito o instrumento coletivo, a entrada em vigor depende do simples dep\u00f3sito perante o \u00f3rg\u00e3o do Minist\u00e9rio do Trabalho e Emprego, vigendo pelo prazo estipulado, tendo for\u00e7a cogente e sendo impositivo a empregados e empregadores envolvidos, independentemente de sindicaliza\u00e7\u00e3o ou qualquer pronunciamento judicial pr\u00e9vio acerca da regularidade formal ou material da norma concebida.<\/p>\n<p>Haja vista a normatiza\u00e7\u00e3o inerente aos acordos e conven\u00e7\u00f5es coletivas de trabalho, o cumprimento de suas disposi\u00e7\u00f5es deveria implicar ato jur\u00eddico perfeito, a teor do disposto no caput e \u00a7 1\u00ba da Lei de Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0s Normas do Direito Brasileiro, a conferir seguran\u00e7a \u00e0s partes abrangidas.<\/p>\n<p>Nesse contexto, sem preju\u00edzo \u00e0 discuss\u00e3o judicial posterior sobre a legalidade e constitucionalidade das normas coletivas, sobretudo acerca da disponibilidade dos direitos transacionados, era de supor-se a imutabilidade das rela\u00e7\u00f5es e dos fatos consumados sob a \u00e9gide de tais atos normativos.<\/p>\n<p>No entanto, o que se tem, at\u00e9 ent\u00e3o, \u00e9 ambiente de extremada imprevis\u00e3o, onde o adimplemento das normas coletivas, das quais n\u00e3o se pode desvencilhar o empregador, n\u00e3o os torna imunes a condena\u00e7\u00f5es em diss\u00eddios individuais ou multas,por vezes milion\u00e1rias, em fiscaliza\u00e7\u00f5es empreendidas pelo pr\u00f3prio Estado.<\/p>\n<p>Nesse contexto, o empregador que se vale, por exemplo, de permissivo convencional, quanto \u00e0s categorias em que h\u00e1 tal previs\u00e3o em norma coletiva, para pagar em parcela \u00fanica o 13\u00ba sal\u00e1rio devido aos seus trabalhadores, como alternativa ao parcelamento de que trata o art. 3\u00ba do Decreto n\u00ba 57.155\/1965, n\u00e3o est\u00e1 a salvo de expressiva penaliza\u00e7\u00e3o, conforme o n\u00famero de empregados envolvidos, a cargo da Superintend\u00eancia Regional do Trabalho sob o argumento de viola\u00e7\u00e3o \u00e0 lei trabalhista incidente.<\/p>\n<p>Do mesmo modo, o sindicato patronal que se ponha a negociar coletivamente incentivos \u00e0 continuidade mediante institui\u00e7\u00e3o de hip\u00f3tese de rescis\u00e3o contratual por culpa rec\u00edproca, com redu\u00e7\u00e3o do valor de multa sobre o saldo do FGTS e garantia de contrata\u00e7\u00e3o do trabalhador pela prestadora de servi\u00e7os sucessora, pode sujeitar a classe patronal executora da norma coletiva a condena\u00e7\u00f5es judiciais em demandas individuais, retroativamente quanto ao per\u00edodo imprescrito, e a novamente a expressivas multas, com obriga\u00e7\u00e3o de pagamento da diferen\u00e7a apurada, opon\u00edveis pela Fiscaliza\u00e7\u00e3o do Trabalho, independentemente de qualquer decis\u00e3o judicial pr\u00e9via em car\u00e1ter abstrato sobre eventual nulidade do acordo ou conven\u00e7\u00e3o. O Minist\u00e9rio do Trabalho e Emprego, inclusive, por meio de suas inspetorias, vem se constitu\u00eddo no aventado direito de ignorar acordos e conven\u00e7\u00f5es coletivas de trabalho quanto \u00e0s cl\u00e1usulas que entende nulas para penalizar o empregador e sem sequer se ocupar de expor ou motivar as raz\u00f5es de seu convencimento, com \u00edmpeto que por vezes sugere pretens\u00e3o de extermina\u00e7\u00e3o do autuado, tal como um inimigo a ser eliminado.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio presente deixa clara a fragilidade do ordenamento jur\u00eddico quanto ao vi\u00e9s normativo das normas coletivas e a inseguran\u00e7a resultante do pr\u00f3prio tratamento conferido pela Justi\u00e7a do Trabalho \u00e0s quest\u00f5es levadas a seu conhecimento e da forma como a Fiscaliza\u00e7\u00e3o do Trabalho vem apreciando e, eventualmente, ignorando tais instrumentos convencionais.<\/p>\n<p>O empregador assume os riscos da atividade econ\u00f4mica e, sem qualquer certeza ou garantia do sucesso do investimento realizado, empreende, emprega, movimenta a economia, produz riqueza e gera receitas necess\u00e1rias \u00e0 presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os p\u00fablicos e \u00e0 atua\u00e7\u00e3o do Estado, em direto benef\u00edcio para o trabalhador, que pode emprestar sua for\u00e7a de trabalho, empregar-se a garantir assim o seu sustento.<\/p>\n<p>Com efeito, mais que a imposi\u00e7\u00e3o de limites ao \u00e2mbito de aprecia\u00e7\u00e3o do conte\u00fado e forma de acordos e conven\u00e7\u00f5es coletivas de trabalho, tal como preconiza o art. 8\u00ba, \u00a7 3\u00ba, da Lei n\u00ba 13.467\/17, h\u00e1 que se ter previsibilidade e preserva\u00e7\u00e3o dos atos jur\u00eddicos perfeitos como forma de consecu\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a jur\u00eddica para ambas as partes na rela\u00e7\u00e3o de emprego, eis que s\u00f3 assim haver\u00e1 terreno f\u00e9rtil e sustent\u00e1vel para o empreendimento e a expans\u00e3o da economia, com respeito \u00e0s negocia\u00e7\u00f5es coletivas e, agora, aos acordos individuais, sens\u00edveis \u00e0s nuan\u00e7as de cada realidade.<\/p>\n<p><em>(*) Donne Pisco \u00e9 Advogado em Bras\u00edlia-DF, s\u00f3cio de Pisco &amp; Rodrigues Advogados, especialista em Direito Empresarial pela Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas (FGV).<\/em><\/p>\n<p><strong>Fonte: JOTA, por Donne Pisco (*), 04.08.2017<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Lei n\u00ba 13.467\/17, que introduziu a reforma trabalhista, vem causando enorme polariza\u00e7\u00e3o de posicionamentos acerca dos efeitos dela decorrentes, sobretudo \u00e0 luz dos prop\u00f3sitos instituidores das altera\u00e7\u00f5es. 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